terça-feira, 13 de junho de 2017

Duas notas de rodapé


1
Qualquer coisa cheira mal
em sua permanência aqui na Terra.
Algo de estúpido se passa
nas reuniões onde se decidem os infartos;
algo não compreensivo ocorre
na comissão que coordena os atropelamentos.

Deus, ou quem estiver no comando,
só pode mesmo ser um cara muito piedoso,
ou andar terrivelmente mal assessorado.
Perdoa-se a burocracia que deve haver
e a longa fila de processos a julgar,
talvez má fé ou corpo mole dos juízes –
o que não é de se surpreender.

Ainda assim somos obrigados a nos perguntar:
por que não se tão urgente? Se tão óbvio?
Não existe melhor hora do que agora.
Para ontem é tarde demais.
Antes tarde.

2
O espaço anda tão escasso
que ocupá-lo por ocupá-lo
não parece nem um pouco válido.

Se livrar de uma ou outra caixa
(aqui usamos a velha metáfora)
que pouco tem nos acrescentado
não pode ser algo assim tão abominável.

Se ao menos guardasse algo
convinha talvez guardá-la.
Que está vazia não resta dúvida,
ácaros, ácaros, ácaros,
aos milhares,
aos milhões, como em toda velha caixa.

O que se perde?
Uma cabeça a menos no senso demográfico.
Um nome encabeçando o obituário.
Talvez uma breve nota de pesar no jornal (desperdício
de papel em tempos de aquecimento global).

Foda-se se tem uma mãe para chorá-lo.



sábado, 10 de junho de 2017

A casa – ou outra coisa – em ruínas

(uma crônica)

1
a princípio a casa parecia sólida (era uma vez...).

as primeiras rachaduras foram esquecidas debaixo de quadros e uma nova demão de tinta – com uma nova cor – solucionava brevemente a questão.

depois, fendas maiores que se mostraram exigiam ferragem & argamassa – ossos/tijolos de uma fratura exposta (e a ferrugem era óbvia).

e vieram técnicos de toda laia com seus laudos de diversas laudas:

o solo possivelmente era impróprio – uma estrutura calcária cedendo à ação da água;

possivelmente tudo se erguera – sem que se suspeitasse – sobre um antigo depósito (mal compactado) que cedia lentamente.

2
na impossibilidade de se fazer algo, espera-se que quando vier ao chão, todos já tenham se mudado
– ou estejam dormindo.

Outro adendo


como falar de poesia com eles
que perderam (perderam!) a vida
contemplando suas fortunas?

(e só conseguem pensar em
um psiquiatra para Mallarmé!
um reformatório para Rimbaud!)

como falar de poesia com eles
que não viram beleza em nada
senão nas vitrines, nos classificados?

(e só conseguem pensam em
um rehab para Baudelaire!
um retiro espiritual para Poe!)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Àqueles que nos odeiam


Aqueles que nos odeiam
nunca descansam
Movidos por uma paixão
de proporção desmedida
são capazes de tudo
o tempo todo
Algo próximo do insano os impulsiona:
um amor à revelia
(ou às avessas)
que se alegra com a nossa ruína
Não dormem
e se o fazem
não sonham com nada além de estratégias
para alimentar a chama de nossa insônia
Incansáveis em seus propósitos
é impossível mencioná-los
de qualquer forma que seja
e não dimensionar
o tamanho da inveja
que os alimenta
Aqueles que nos odeiam
nunca descansam
Não reconhecem fim de semana
feriado, dia santo:
seriam funcionários exemplares
se ao trabalho se dedicassem
como se debruçam sobre nosso itinerário
Em suas vidas miúdas
estão agora mesmo escolhendo com afinco
o nomes dos fakes
como se fossem
os nomes dos seus futuros filhos
Na falta de um nome
– as vezes falha a inspiração –
um perfil anônimo, em rede social
cumpre a função
Só repetem, afinal
o que seus pais fizeram com os nossos pais
(que isso de ser um merda
quase sempre se herda)

Rafael Nolli
01/06/17

domingo, 12 de março de 2017

Gertrude Sabe Tudo no canal Minhas Leituras

Mais uma resenha muito positiva do meu liro, Gertrude Sabe Tudo! Dessa vez no cana "Minhas Leituras" de Thaís Wandrofski.

 https://www.youtube.com/watch?v=odYKF_BYBdU&t=218s

quinta-feira, 9 de março de 2017

Gertrude Sabe Tudo


Durante a produção do livro Gertrude Sabe Tudo, o ilustrador Gutto Paixão me enviou alguns esboços. Essa imagem foi a primeira que vi da Gertrude. Era inédita, até esse momento.

terça-feira, 7 de março de 2017

Gertrude Sabe Tudo no canal Redemunhando

Amigos, mais uma aparição da Gertrude em um canal literário. Dessa vez foi a Natasha do canal Redemunhando que fez uma leitura e análise sobre a obra!
Confiram!


https://www.youtube.com/watch?v=Q_bVUHfnQLg&t=187s

sábado, 4 de março de 2017

Entrevista no Catraca Seletiva

Amigos, uma entrevista para o portal Catraca Seletiva! Longo papo sobre literatura e afins!

http://www.catracaseletiva.com.br/2017/02/entrevista-l-rafael-nolli-autor-de.html

manda que estas pedras se tornem em pães


1
a mulher em farrapos
gritava “acuda!” “acuda!”
enquanto dois cães
prestes a atacá-la
ladravam ferozmente                                       
se movimentando em círculos
como se tivessem uma estratégia
& não fossem uma pilha de nervos
guiados pela fome

2
o pão em sua mão
dormido de tantos e tantos dias
desatando a fúria da matilha:
as pombas no fio
– prevendo as migalhas –
esperavam a hora de agir

3
“Acuda!” “Acuda!” a mendiga gritava
já completamente dominada:
as costas de encontro com a parede
um cão agarrado à barra de sua saia
outro, babando de raiva, rouco
cobrindo a retaguarda

Mas ninguém acudia:
suas vidas não dependiam
daquele pedaço de pão


embolorado

Resenha no Jornal de Alagoas- por Adalberto Souza


                                                         Ilustração de Gutto Paixão
http://www.jornaldealagoas.com.br/blogs/adalberto-souza/gertrude-sabe-tudo---l-rafael-nolli

Gertrude Sabe tudo no Catraca Seletiva

Amigos, uma bela resenha no portal Catraca Seletiva sobre o livro Gertrude Sabe Tudo!
Confiram!

http://www.catracaseletiva.com.br/2017/02/resenha-gertrude-sabe-tudo-l-rafael.html

Gertrude Sabe tudo no Canal Pronome Interrogativo!

Amigos, o livro Gertrude Sabe Tudo tem conquistado um bom espaço! Hoje saiu um comentário super bacana no canal Pronome Interrogativo. Deixo o link para vocês conferirem! Abraços!


https://www.youtube.com/watch?v=k99UsERWsyY#t=04m50s

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A mulher começou fumar


1
a mulher começou a fumar
não havia nenhum fumante na família
ocorrendo certo desconforto
– desde sempre, pelo que se lembrava –
quando fumavam perto dela

o turno na noite
– em um estacionamento de shopping –
convidava à solidão

às vezes
no descanso do lar, ocorria de ouvir
o som dos pneus, riscando o chão
quando manobravam antes da rampa

2
se lembrava da mãe comentar
– com uma ponta de ironia –
que se não estudasse acabaria secretária
fato que lhe parecia
– no momento
– convenhamos! –
melhor do que aquilo

o pai amenizava
contava nos dedos os diplomados
– só no seu lado da família –
que terminaram assim:
“muito trampo / pouca grana”

uma tia
– um tanto distante na genealogia –
– ele frisava –
tinha devorado os livros
e terminara em um caixa de supermercado
“contando o dinheiro dos outros”

3
certa noite
pegou um guimba no chão
– perto de onde os carros manobravam –
e deu o primeiro trago

não havia um único fumante na família
ela pensava entre um &
    outro trago



Elegia nº 2


1
o que estiver em andamento findará
& não haverá mãos que o resgate:

o pão com manteiga
(mordido uma única vez)

a reforma do telhado
(antes da temporada das chuvas)

o poema derradeiro
(abortado na última estrofe –

restando apenas – talvez –
o ponto final)

2
pequenas coisas, de uma banalidade ímpar
exigindo algum engenho & muita paciência:

encontrar o carro estacionado em local ignorado
(em alguma rua nas proximidades –
não mais que dezenas delas em dois quarteirões)

“alguém precisa ir alimentar o gato
& dar de beber às samambaias –
sabe-se aonde guardava as chaves de casa?”

quitar uma pequena dívida no mercadinho
(duas maçãs, uma garrafa de mel, cachaça –
“não há nota”, diz o cobrador meio encabulado)

3
o morto não se enterra sozinho
havendo em torno diversos encargos:

alguém que pague tudo (caixão,
carneiro, lápide)
& seja justo no rateio entre os familiares –
“a cada um segundo as suas possibilidades”

cabendo a outrem a inglória parte
– quem há de fazê-lo sem se lastimar? –
de avisar a mãe
(aquela que o carregou por 9 meses)
que antes de se desesperar
encontrará forças
para ligar na manicure
& desmarcar o horário



Uma rosa, apenas


1
o entregador
– jovem em seu uniforme –
carrega consigo uma flor 
segue a segurando pela cabo
(que displicência!)
com as pétalas voltadas para baixo

é possível que perca alguma!
uma pessoa pensa ao observá-lo

pouco antes do momento da entrega
– aqueles segundos de ferro –
retomará a postura e, com a mão livre,
ajeitará a gola da camisa

sem perceber que seu rosto organiza
(colocando um par de músculos à prova)
seu melhor sorriso

2
a mulher
– que nunca foi amada –
carrega consigo uma flor
presa junto ao corpo
como se levasse um filho:
não um filho nascido: 
um que se faz em segredo no útero

quem a enviou?
– ainda que feia e de poucos atributos –
não há como saber
(& o entregador tão pouco pode revelar)

“para cada pé, há um sapato!”
alguém que observa pensa;
“para cada panela, uma tampa!”

talvez nem ela saiba – e convenhamos –
é possível se tratar de um engano
(e não de um admirador secreto)

ou de uma peça pregada pelas amigas
(e não de um amante)

ou ela mesmo se presenteou
(a solidão, por que não,
que companhia!)

mas como está feliz
nota-se pela forma
– discreta –
que olha para a flor
enquanto aguarda o ônibus










domingo, 4 de dezembro de 2016

essas palavras murmuradas pelas varandas


1
eram três ou quatro
viviam às margens
conspirando
pequenos & rudimentares
como peças
se desgastando dentro da engrenagem

2
muitos não eram
pois deixavam rastros por todo lado
e era coisa pouca
como o resto que deixa um ou dois ratos

3
Eram três ou quatro
não se sabe ao certo
porém era óbvio que o número bastava:

incomodavam
uma dor pequena
tipo uma espinha / uma cutícula inflamada

4
Muitos não eram
e quando vinham à tona
estava claro
a luz os incomodava

semelhante ao pirata
ou seu prisioneiro
que passou tempo demais no porão
preso em ferros
ou comendo escondido as provisões

5
eram três ou quatro
e no meio das pessoas
– contra quem atentavam –
poderiam passar despercebidos
mas não passavam:
os denunciava uma marca secreta

não se podia explicar o que era
nem precisava



04/12/16